Artigo 11
 
Quer um antigo? Então corra
 
 
Quem se der ao trabalho de um pequeno raciocínio a respeito do reduzido universo dos veículos antigos no Brasil encontrará várias explicações, embora a linha básica que as una seja a de uma sólida e resistente ignorância manifesta em diversas ocasiões.
Começa com o despreparo dos mecânicos que não conseguiam reparar os veículos mecanicamente mais elaborados, condenando-os ao sacrifício do transplante de peças ou a uma vida curta encerrada em ferros-velhos. Passa pelos usuários, cuja cultura automobilística era absolutamente descompromissada com marcas e origens.
Saindo deste varejo chega à característica nacional do desapego ao passado, aos referenciais do tempo. Se isto é uma acomodação ou se é uma conseqüência do pensamento de um povo sempre disposto a aplaudir a novidade do conquistador, desmerecendo as marcas e sinais brasileiros, a dúvida será de caráter acadêmico, entre a história e a sociologia.
Mas o fato é que esta despreocupação em conservar os marcos do passado é característica nacional e não apenas omissão, despreparo ou inação dos funcionários públicos que ocupam os setores encarregados da preservação cultural. As razões são profundas e passam pela ignorância dos contribuintes que não cobram movimento de preservação, dos políticos que não destinam verba à cultura, e posturas de governo de quem nós, contribuintes e eleitores, não cobramos ações corretas.
Neste processo nefasto que forçou o desaparecimento rápido dos veículos mais refinados e tecnologicamente mais elaborados, fazendo sobreviver apenas os de simplicidade mecânica e conseqüentemente de menor relevo como referência da história, dos costumes e da tecnologia, há ainda um fator perverso, eticamente muito mais condenável. É a falsa sabedoria, mais nefasta que a ignorância, e é o que vem sendo praticada pelos brasileiros que exportavam os veículos antigos.
Digo exportavam porque houve um espaço de tempo em que o país ficou sem uma legislação que impedisse a saída de veículos antigos -- uma boa parte da coleção de Roberto Lee, que era a pioneira e mais destacada, foi enviada ao exterior, assim como outros veículos de relevo.
Então o Ministério do Desenvolvimento, através do Decex, vedou a expedição de documentos autorizativos, enquanto estuda legislação que lhes impeça a saída. Isto impedirá o saque aos bens culturais e permitirá que tanto os veículos estrangeiros quanto os nacionais, que começam a se tornar objeto de interesse histórico e cultural, fiquem no Brasil.
Se você quer ter os prazeres da propriedade de um veículo antigo, e está aberto a conselho, compre um nacional. Escolha um de boa referência, construção, solidez.
Tente optar pelos veículos especiais. Lembre-se que isto é um negócio, que deve ter valor e liquidez, permitindo que o seu primeiro antigo possa ser a entrada para o segundo.
Para seu convencimento, procure pelo que o mercado distingue melhor, as versões mais desejadas e valorizadas. Assim, se você elegeu um Interlagos, os Berlinetta tem melhor aceitação. Dos Simca, Rallyes e Presidences puxam a fila. De Aeros, opte pelo Itamaraty. Em Vemags, os Fissores. Claro que nada desmerece um Interlagos conversível, ou o Aero em si, os sólidos DKW Belcar ou Vemaguet. Você sabe, há o exemplo dado pela Constituição -- todos são iguais perante a lei --, mas você conhece alguns que são mais iguais que os outros...
Se a sua opção é mais moderna, a segunda geração da indústria automobilística brasileira trouxe produtos mais atualizados -- Galaxie, Dodge, Volkswagen, Corcel, Opala -- e capazes de restauração e utilização mais fácil.
Será caso grave, duradouro, terminal.
Conselho final. Certos exemplares exigem a cautela de saber se você acha os componentes de reposição no momento da compra do carro. Quebrou, acabou -- como os primeiros nacionais com injeção eletrônica e a caixa de marchas automática do Del Rey. Escolha o carro, localize os reparos, compre-os em duplicata, e depois compre o automóvel.