Artigo 10
 
O vírus antigomobilista aeternus
 
Os olhos brilham quando o assunto é mencionado,
o clube é trocado por visitas a oficinas...
 
 
O vírus antigomobilista aeternus, também conhecido como vírus da graxa ou da ferrugem, é um poderoso agente cultural benigno, de espectro tão amplo quanto duradouro e contra o qual não há medicação ou posologia que o detenha nem reduza seus efeitos. Há vagas referências, não acadêmicas ou científicas de pacientes, que apesar de não obter eliminação completa, mantém-no em letargia por causas externas.
 
Estas são usualmente vinculadas a temores uxórios -- as simplórias ameaças domésticas do tipo ou eles, ou eu!; ou através da síndrome de algibeira -- as famosas panes de bolso, associadas às crises e planos econômicos; ou ainda a decepções gregárias -- observadas quando os clubes da especialidade caem em imobilidade profunda.
 
Não se conhecem as formas de contágio com o vírus antigomobilista aeternus, mas seus sintomas são claros e especiais. Fisiologicamente nota-se um olhar baço, gazo, toda vez que o tema veículos antigos é mencionado. Comportamentalmente o paciente sofre modificação de hábitos -- começa a fazer caminhos que passem por oficinas, troca a raquete de tênis e o clube dos sábados por uma incontrolada rota de visitas a outros indivíduos igualmente contaminados. Alguns adotam postura acadêmica, com livros e vídeos sobre o tema. Outros absorvem informações através de contatos com gente infectada há mais tempo.
 
O contágio com outros debilitados incrementa a ação do vírus.
 
Pesquisas mostram novos hábitos que os inoculados adotam: mudanças no ciclo de relações; nova literatura; visitas a doentes em estágios mais avançados, indivíduos conhecidos popularmente como colecionadores; agenda com nomes e apelidos os mais curiosos. Não há ciência, terapia ou medicamento capaz de eliminar tal infestação, marcada por uma série de evidências: unhas e mãos habitualmente sujas, peças esquisitas e ferruginosas sobre a mesa de trabalho ou que merecem grandes esforços domésticos para ter aparência melhorada.
 
Evidencia-se o estágio crônico e sem volta quando o já doente chama a família à garagem de onde foi retirado o automóvel novo e em seu lugar há um veículo velho, esquisito, mal conservado, e o definitivamente contaminado vira-se à família, olhos infantilmente brilhantes e declara: "Não é formidável?"
 
Será caso grave, duradouro, termminal.
 
Roberto Nasser é doutor em antigomobilismo, pesquisador inefável, e dirige seus trabalhos em direção contrária à cura, mas pelo aprofundamento da vivência e disseminação do vírus.